O separatismo na Geórgia
Percebi já há algum tempo que muitas das pessoas que caem aqui no blogue estavam buscando informações sobre os reais motivos para as províncias separatistas da Geórgia – Abkházia e Ossétia do Sul – quererem a independência. Tendo isso em vista, resolvi iluminar um pouco o caminho.
Não sei muito aprofundadamente o que acontece na região porque não vivo lá, mas interesso-me o suficiente sobre o assunto para acompanhá-lo de perto nos jornais do mundo. E o máximo que posso dar de opinião sobre tudo isso é baseado na minha experiência própria de uma pessoa que viveu na Bélgica, um país que, talvez até mais que Geórgia, está emergido em uma de suas piores crises políticas históricas por causa de movimentos separatistas.

Mapa flamengo da Bélgica que mostra como eles dividem o país entre Flandres, cujas cidades estão detalhadas, e "região da Valônia" (Foto: Reprodução)
Na Bélgica a situação é a seguinte: há três regiões geográficas no país, divididas em três línguas e etnias diferentes. Ao norte está a região de Flandres, mais rica e cujo idioma oficial é o Neerlandês. Ao sul fica a região da Valônia, de maior dependência dos flamengos e cujo idioma é o Francês. Há ainda uma pequeníssima região ao leste, que oficialmente faz parte de Flandres, aonde o idioma oficial é o Alemão.
Por que então, sob uma mesma bandeira e um mesmo governo, vivem 3 povos tão diferentes? A resposta está na história da formação do Estado europeu, que após sucessivas guerras e conflitos, já fez parte dos Impérios Espanhol, Francês e Holandês. Depois de muita confusão e concessões de terras, a Bélgica formou-se o país que é hoje: uma parte descendente de holandeses ao norte, uma região que pertencera à França ao Sul e uma outra que, após as duas Grandes Guerras, foi anexada ao território belga. 3 povos completamente estranhos que se viram unidos em um mesmo país sem que, no entanto, sintam-se parte dele.
O caso na Geórgia é parecido: a Ossétia do Sul era uma região da antiga Ossétia, dividida após as guerras em Ossétia do Norte, pertencente à Rússia, e Ossétia do Sul, “província” geórgia. A Akházia
possui história semelhante. E então o que as duas regiões decidem fazer? Declarar independência. Ora, se o povo é diferente, a língua é outra, a cultura é oposta e a população não se sente parte de uma identidade georgiana, então eles não precisam fazer parte do país.
Mas as coisas não são tão simples quanto parecem. Declarar a independência de duas importantes regiões do território georgiano seria atentar contra a soberania dele. Além disso, ambas as províncias demonstram interesse em integrar o território russo, então para a Geórgia é como perder terras para o país vizinho. E por isso, em um primeiro momento, toda a crise no cáucaso.
Claro que há questões políticas e estratégicas por trás de todo o problema, mas essa de separatismo europeu não é novidade. Não apenas na Bélgica e na Geórgia, mas são diversas as regiões da Europa de movimentos independentistas. E tudo isso são os frutos que o velho continente está colhendo depois de tantos anos juntando inimigos e povos diferentes. É o que já acontece em Israel. É o que já acontece também na África. É o que eles precisavam para entender que geopolítica não é só traçar um monte de linhas e dizer “pronto, fronteiras!”
vBi
Rússia x Geórgia e o separatismo europeu (Ossétia)
Está em pauta (e em alta) o conflito entre a Rússia e a Geórgia, cujo pano de fundo é o movimento separatista de duas regiões da Geórgia: a Ossétia do Sul e a Abkházia. O problema vai muito além da simples vontade das regiões de separarem-se do país ao qual fazem parte. Movimentos como esse, hoje tão falado porque os países entraram em guerra, são comuns por toda a Europa, e dão uma idéia dos caminhos que o mundo está seguindo.
Geralmente ligados a partidos e ideologias políticas de extrema direita, os separatistas lutam para criar (novos) Estados independentes que não tenham ligação política ou estatal nenhuma com pessoas de uma etnia diferente. É o caso da Geórgia, da Ossétia do Sul e da Abkházia, que são regiões com três povos distintos.
No caso da Ossétia, que ganhou maior atenção da mídia, a questão vai além das diferenças básicas de cultura: os ossetas são um povo diferente, falam uma língua outra que a georgiana, não simpatizam com georgianos, lutam pela independência desde a extinção da antiga URSS e, culturalmente, não se parecessem em nada com os geórgios. A única coisa que une os dois países é o fato de, após a Revolução Russa, a Geórgia ter anexado a região a seu território.
As diversas guerras e conflitos europeus desde os séculos mais antigos foram responsáveis diretamente pelos problemas territoriais que hoje o velho continente enfrenta. A Ossétia, que já foi independente, foi anexada após guerras e revoluções ao território geórgio, mesmo sem fazer parte do país e mesmo sendo os dois povos totalmente diferentes. Hoje, anos depois, a população osseta não se sente
parte do Estado da Geórgia – prova disso é o resultado do último referendo realizado sobre o separatismo, cujo resultado foi de 99% a favor da independência -, mas vê-se obrigada a abrir mão de sua identidade cultural por uma outra.
O caso é comum na Europa, que começa a sentir as conseqüências de diversas guerras, revoluções e conflitos no continente, que uniu, diversas vezes, etnias completamente diferentes – e por vezes inimigas – sob uma mesma bandeira. Não é incomum regiões de um mesmo país europeu que falem línguas diferentes, principal característica dessa junção maluca de povos. O velho continente começa a sentir agora o que a África já vem sentindo a décadas depois da colonização, e esse seja, talvez, o preço a pagar.
vBi
ouvindo: Read My Mind, The Killers. Hung Up, Madonna.
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