O Caderno de Saramago
Parece que aproveitando a “febre” de Blindness, o escritor e Prêmio Nobel português José Saramago resolveu aderir ao mundo digital e iniciar um novo blogue, entitulado “O Caderno de Saramago”. O espaço, criado na semana que acaba de passar, será um lugar virtual para os leitores apreciarem os inteligentíssimos textos (polêmicos) de Saramago – e alguns outros nem tanto.
De acordo com as próprias palavras do escritor na descrição do site, foi-lhe dito que reservaram para ele “um espaço no blog e que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice”.
Os posts de Saramago são ótimos, e literatura certamente não é o tema central do blogue. É uma boa dica para quem gosta de ler textos de qualidade ou para quem, como eu, é fã dele. Se der certo e for para a frente, com certeza pode ser um dos grandes blogues da atualidade, escrito por um dos maiores escritores desta geração.
Blindness
Foram 3 dias para eu conseguiur digerir completamente o mais novo filme do baladíssimo diretor brasileiro Fernando Meirelles, Blindness (Ensaio Sobre a Cegueira), adaptado do romance homônimo do escritor português José Saramago. E depois de tanto tempo, posso dizer com certeza que não só acho o filme o melhor da temporada, como certamente merecerá cada um dos Oscars aos quais deverá concorrer.
A primeira coisa que me impressionou foi o fato de quase todos os takes externos terem sido feitos em São Paulo. Ou seja, o filme é ambientado em São Paulo, não no Canadá, não no Japão, não no Chile. Acho que a única hora em que eles não estão mesmo na cidade brasileira é no finalzinho de Blindness, quando depois de o manicômio ter pegado fogo e eles terem todos fugido, a Mulher do Médico e o Médico resolvem ir atrás de comida em um supermercado.
E as cenas são lindas. A fotografia do filme não merece apenas aplausos. Merece MUITO mais. Não sou entendido de cinema ou especialista, e acho que por isso mesmo a opinião deve ter credibilidade, afinal, o objetivo é agradar ao público, não é? Mas duvido também que alguém que entenda ache alguma coisa para reclamar. Meirelles conseguiu passar a sensação da “cegueira branca” durante todo o filme. A cor é muito usada em todas as cenas, e o excesso de branco é que cega, muitas vezes, o espectador, que através do recurso escolhido pelo diretor, sente-se também um cego.
Além de bonito esteticamente, o filme é bastante fiel ao livro. E isso é o que causa tanta repulsa. A condição humana é levada ao extremo quando toda a população de um país fica cega; não de uma cegueira comum, mas de uma cegueira definida como “um mar branco de leite”. Para conter a situação, o governo resolve ir internando os primeiros cegos em um manicômio sem lhes dar comida suficiente ou condições de sobrevivência básicas. E em pouco tempo, como ninguém além da Mulher do Médico vê, a situação torna-se caótica e desumana, antisocial e vergonhosa.
Assim como no livro, ninguém sabe o motivo de a cegueira ter atingido o país. E ninguém entende também porquê a Mulher do Médico é a única que enxerga. Mas justamente esse fato a faz surtar e ter suas recaídas, pois em uma terra de cegos, sendo ela a única que enxerga mas sem poder contar isso aos outros, ela se torna escrava por escolha própria das pessoas de sua camarata. E ela é a única que, enxergando, dá ao espectador a visão; ela é quem mantém um resto de dignidade em um local aonde a palavra deixa de existir; ela é o resto de social e humano que resta ali.
Assim como no livro, os personagens não são nomeados. Também não teria motivo para isso. Não há importância em saber o nome de uma pessoa que não vemos em um lugar em que o conceito de convivência em sociedade deixa de existir de certa forma. E o filme também não usa de sua liberdade para adaptar a história de outra forma. Há cenas que são cortadas, afinal nem tudo caberia na telona, mas a história em si é igual.
Ensaio Sobre a Cegueira certamente agradará à grande maioria, e não é de se espantar se levar mais de uma estatueta de ouro no ano que vem. Fernando Meirelles fez o que é, até hoje, sua obra-prima. E gostem os críticos ou não, sejam os cinéfilos sejam os literários que não gostam de adaptações de livro, o importante é que a quem o filme tinha que agradar – ao próprio Saramago -, ele não so agradou como arrancou lágrimas. A opinião de quem realmente a precisava dar já foi dada com emoção. Agora resta ao público apreciar a obra de arte.
vBi
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