Termina o MediaOn, em São Paulo, com debates sobre as ferramentas web
Se os temas dos debates do segundo dia do MediaOn, seminário internacional de jornalismo realizado pelo Terra, giraram em torno de como a web deve ser utilizada e quais são seus entraves financeiros, no último dia de palestras a pauta foi como esse uso das ferramentas 2.0 impacta tanto o profissional quanto o leitor. Durante os quatro painéis foram discutidos temas como TV digital, viabilidade e custo de empresas para web, o importante papel do jornalismo esportivo nessa mídia e o impacto das redes sociais no cotidiano do jornalista.
Tiago Dória, blogueiro do portal IG que debateu no último painel do evento, definiu a internet como “único meio em que a notícia não fica ‘amarelada’ no papel; em que não tem prazo de validade”. A web tem a característica de armazenar por tempo indefinido as produções jornalísticas, sem, no entanto, torná-las envelhecidas. E é com isso em mente que o jornalista online deve pensar suas matérias e possíveis pautas. Por isso também, de acordo com vários dos outros debatedores, não adianta “fazer mais do mesmo” e republicar aquilo que vem da mídia impressa de forma crua no online.
“Não adianta mais a gente se contentar em dar a notícia primeiro. O que conta é a apuração”, analisou o colega de painel de Dória, José Roberto de Toledo, diretor da PrimaPagina. Para ele, os jornalistas online são conectores de informação que devem estar o tempo todo não apenas conectados, mas atentos às redes sociais. É dessa interação com essas redes, aliás, que surge a qualidade para outro palestrante, o jornalista esportivo Julio Gomes, que falou no sétimo painel. “Prestamos atenção no que as pessoas acham do nosso trabalho. Isso é essencial”.
O jornalista online não pode fugir da realidade do mundo e das tecnologias, pois nada está parado no mundo da web. Os comentários em blogues, os tweets, os scraps do Orkut são importantes para o trabalho jornalístico, pois servem não só como medidor do impacto da notícia como do próprio trabalho. É no que acredita, pelo menos, o paraibano Sílvio Meira, que palestrou no sexto painel. “[O jornalista] tem que participar da construção na web”, afirmou. Esse profissional teria que manter diálogo constante com as redes sociais e aceitar a forma como a web está se moldando. Hoje, a internet é uma comunidade enorme na qual há convergência de mídias e informações. Mas ela está em constante mudança.
Informaticidade foi como Sílvio Meira definiu essa convergência toda – em que a sincronia é algo extremamente importante. O conteúdo é acessável a qualquer momento e de qualquer lugar.
André Mermelstein, que debateu a informação em tempo real junto com Sílvio, atenta para outra característica do uso das ferramentas web: “Gasta-se, por exemplo, R$ 1 mi em uma campanha que pode ser destruída por um post de um leitor com menos de R$ 1”. O conteúdo criado pelo jornalista é facilmente encontrável em qualquer lugar da web, mas o leitor também dispõe da mesma “informaticidade” que o jornalista, e, podendo acessar e usar a internet a praticamente qualquer momento, pode também criar seu próprio conteúdo e derrubar o do profissional.
A internet abriu portas para que o caminho de duas mãos fosse construído. Para Tiago Dória, o diferencial da imprensa tem que ser saber usar a rede a seu favor, ao invés de apenas fazer parte dela. Saber usar o Twitter, o Facebook, o Orkut, o Google e outros diversos como ferramentas que enriqueçam a matéria. “O objetivo”, conclui José Toledo aludindo à ideia do Twitter, “é ter sua mensagem passada adiante”.
vBi
Segundo dia do MediaOn traz debate sobre como o jornalista deve trabalhar
O conteúdo online deve ser pensado exclusivamente para a internet, levando em consideração seu público e não reaproveitando material das mídias tradicionais. Foi em torno desse consenso que os debates do segundo dia do MediaOn, seminário de jornalismo online realizado pelo Terra, giraram. De acordo com vários dos expositores, nesse novo cenário é o leitor quem pauta os jornalistas, que veem-se desafiados a aceitar a nova forma de trabalho.
“Como deveria ser o jornal online?”, perguntou-se o palestrante Pedro Doria, colunista do caderno Link do O Estado de S. Paulo, no primeiro Painel, sobre revolução digital. “Toda informação sobre um determinado assunto deve estar em uma página, que é permanentemente atualizada e reúne uma comunidade de pessoas interessadas naquele assunto”, respondeu o jornalista à plateia.
Uma característica da ferramenta web é, portanto, poder atualizar constantemente as informações – sem, porém, perder a qualidade do conteúdo. “Tudo se resume em compartilhar informação, mas isso é bem mais difícil do que parece”, afirmou Nathalie Malinarich, editora-executiva da BBC News Online e palestrante do segundo painel. A grande dificuldade, ainda segundo ela, seria lembrar que as ideias adaptam-se à mídia na qual serão veiculadas, o que os jornalistas nem sempre se recordam quando vão publicar um material de mídia impressa. “A pergunta a ser respondida é: ‘como isto funciona para a minha audiência e na minha plataforma [online]?”, analisa.
Já outro dos palestrantes, o argentino Marcos Foglia, que apresentou o case do grupo Clarín, no terceiro painel, enxerga uma dificuldade dentro de cada um dos próprios profissionais em aceitar as mudanças e, principalmente, em acompanhar o ritmo da evolução. “Estamos na era da transição”, afirmou, “da transição dos meios offline para os meios online”. E o jornalista – em especial aqueles mais antigos -, ainda segundo ele, teria que aceitar essa mudança profunda em sua cultura; uma mudança dentro das próprias redações. “Os jornais vão desaparecer tal como existem hoje e terão que se adaptar à nova realidade”, afirmou.
No caso da rede britânica BBC, estão sendo feitos investimentos fortes na área do jornalismo na web. Mas lá, boa parte do patrocínio vem do dinheiro público. “O jornalismo de qualidade é caro”, lembrou Foglia. Foi o que aconteceu com a Rede Record no Brasil, por exemplo, que lançou há pouco mais de um mês seu portal R7 – que recebeu investimentos (privados) altos para sua implementação, no intuito de atingir esse padrão de qualidade alto. “Eu cheguei e falei ‘contratem os melhores’. Foi o único pedido que fiz”, contou Antonio Guerreiro, Diretor de Conteúdo do R7.
O profissional de web deve, segundo Nathalie, lembrar-se sempre de que desenvolve conteúdo para o leitor. É dessa consciência que viria a qualidade do jornalismo online. “Se você está na web, por exemplo, você linka as pessoas para outros conteúdos. É isso que [o jornalista] tem que fazer”, afirmou ela. Seu colega argentino, Marcos Foglia, complementou, mais tarde: “é imprescindível para esse novo profissional passar, portanto, a maior parte de seu tempo online”.
vBi
MediaOn, seminário de jornalismo online, começa discutindo a qualidade do profissional
O 3º seminário internacional de jornalismo online, MediaOn, realizado pelo portal latino-americano Terra, teve início nesta terça-feira, 27, com debate, no Itaú Cultural, com o jornalista investigativo estadunidense Joshua Benton sobre jornalismo de qualidade na web. Benton é também diretor do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, e pesquisa justamente os rumos da profissão no meio online.
Para ele, que se diz um otimista, “neste mundo no qual há escolhas crescentes, as pessoas estão elegendo outras mídias que não as impressas para se informarem”. A internet, portanto, segundo o analista, veio para mudar profundamente o jornalismo, não para matá-lo, como muitos acreditam.
O pico de circulação dos jornais diários, nos Estados Unidos, deu-se durante o final da segunda guerra mundial, no ano de 1945. De lá para cá, as tiragens vêm diminuindo e as pessoas têm buscado outros meios de comunicação. “O declínio, portanto, começou muito antes de a internet chegar”, afirmou Benton. Os impressos, para ele, dificilmente deixarão de existir, mas terão de reinventar-se, assim como aconteceu com o rádio quando da invenção da televisão.
O que o especialista afirmou serem algumas causas, em seu país, para a crise da mídia impressa são a grande extensão territorial – o que dificulta a existência de um grande jornal de tiragem e abrangência nacional – e o alto número de pessoas conectadas à rede. Além disso, não há como negar os baixíssimos custos da internet quando comparados aos dos meios em papel – um anúncio de ¼ de página, por quatro domingos seguidos, custa em torno de 157 mil dólares, enquanto a mesma propaganda na web sai por 7 mil e quinhentos dólares por todo um mês.
Mas não é só o marketing que contribui para a decadência do jornalismo impresso tal como é conhece hoje. Os leitores também buscam algo a mais: menos de 1% dos internautas estadunidenses, por exemplo, visitam as páginas dos grandes veículos na web. “Enquanto que do ponto de vista do jornalista há informação demais, do lado do leitor poderia haver mais coisas”, afirma Joshua. Ou seja, o leitor busca informações e notícias por outros canais que não os tradicionais. É um movimento alavancado pela internet.
O papel do jornalista, nessa conjuntura, é atuar mais como filtro das informações online, levando o leitor para outros sites relevantes e direcionando-o para que se aprofunde no conteúdo de seu interesse. “Até hoje os jornais têm filtrado conteúdo que poderia ser interessante e dado prioridade apenas a um tipo de informação”, continua o jornalista. Ele citou como exemplos redações de poucas pessoas que, focadas nesse intuito de mais que informar, têm tido sucesso maior que as tradicionais páginas dos grandes jornais dos EUA. Em outras palavras, como aconselhou outro colega, Jeff Jarvis, em citação apresentada por Joshua, “façam o que fazem de melhor, e linquem o resto”
Dado todo esse cenário, o jornalista terminou sua palestra com um alerta para que os profissionais mantenham o alto padrão de qualidade da profissão: “a internet treinou as pessoas para ouvirem a informação através de uma espécie de contato social; ela não tolera descaso ou falta de comunicação entre o novo jornalista e o leitor”. E terminou lembrando que “nós [jornalistas] vamos ser as pessoas que lêem os websites para que os leitores não tenham que fazê-lo”, em uma alusão à ideia de Jeff Jarvis.
vBi
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