O dedo russo
Perguntaram por meio de comentário qual o motivo de a Rússia ter entrado na disputa entre Ossétia do Sul e Geórgia. Não é uma pergunta respondível, até porque não sou russo e muito menos do governo russo, mas podem-se levantar algumas boas hipóteses.
A primeira hipótese é bem evidente: a Ossétia, na verdade, era um país que foi dividido entre Ossétia do Sul – pertencente hoje à Geórgia – e Ossétia do Norte – pertencente à Rússia. Os russos, seja por bondade, seja por interesses políticos, já inclusive reconheceram a independência da Ossétia do Sul. O que não ficam claras são as reais intenções russas na história toda. O discurso é o da bondade: os ossetas merecem ficar junto de seu povo; mas quisesse a Ossétia do Norte separar-se da Rússia, talvez a história fosse diferente.
Uma segunda hipótese para a Rússia ter entrado na guerra é o fato de o país desempenhar papel de mantenedor da paz na região do Cáucaso, e por isso os russos prefeririam acabar de uma vez com a disputa. Para acabar com ela, visto que os ossetas não querem fazer parte da Geórgia, a única saída seria apoiá-los na guerra. O problema desta hipótese é que a Rússia não é tão boazinha assim e possui claramente interesses políticos nisso tudo.
Também pode-se dizer que os russos estão lutando pela liberdade ao lado da Ossétia do Sul. A região não se sente parte da Geórgia cultural e socialmente falando, mas nenhum país, até hoje, havia reiterado sua independência, que não obstante já fora declarada.
Há ainda inúmeras hipóteses a serem levantadas, mas todas são muito pouco prováveis de serem verdade. Os russos devem ter alguma pretensão na região, mas para saber isso, só sendo um russo e do alto escalão do governo.
O fato é que tanto a Ossétia do Sul quanto a Abkházia são regiões autônomas com independência já declarada mas não reconhecida. Os povos são completamente diferentes daquele da Geórgia, e ambas as regiões preferem formar novos Estados do que se submeter às leis de um país que não os entende.
vBi
Rússia x Geórgia e o separatismo europeu (Ossétia)
Está em pauta (e em alta) o conflito entre a Rússia e a Geórgia, cujo pano de fundo é o movimento separatista de duas regiões da Geórgia: a Ossétia do Sul e a Abkházia. O problema vai muito além da simples vontade das regiões de separarem-se do país ao qual fazem parte. Movimentos como esse, hoje tão falado porque os países entraram em guerra, são comuns por toda a Europa, e dão uma idéia dos caminhos que o mundo está seguindo.
Geralmente ligados a partidos e ideologias políticas de extrema direita, os separatistas lutam para criar (novos) Estados independentes que não tenham ligação política ou estatal nenhuma com pessoas de uma etnia diferente. É o caso da Geórgia, da Ossétia do Sul e da Abkházia, que são regiões com três povos distintos.
No caso da Ossétia, que ganhou maior atenção da mídia, a questão vai além das diferenças básicas de cultura: os ossetas são um povo diferente, falam uma língua outra que a georgiana, não simpatizam com georgianos, lutam pela independência desde a extinção da antiga URSS e, culturalmente, não se parecessem em nada com os geórgios. A única coisa que une os dois países é o fato de, após a Revolução Russa, a Geórgia ter anexado a região a seu território.
As diversas guerras e conflitos europeus desde os séculos mais antigos foram responsáveis diretamente pelos problemas territoriais que hoje o velho continente enfrenta. A Ossétia, que já foi independente, foi anexada após guerras e revoluções ao território geórgio, mesmo sem fazer parte do país e mesmo sendo os dois povos totalmente diferentes. Hoje, anos depois, a população osseta não se sente
parte do Estado da Geórgia – prova disso é o resultado do último referendo realizado sobre o separatismo, cujo resultado foi de 99% a favor da independência -, mas vê-se obrigada a abrir mão de sua identidade cultural por uma outra.
O caso é comum na Europa, que começa a sentir as conseqüências de diversas guerras, revoluções e conflitos no continente, que uniu, diversas vezes, etnias completamente diferentes – e por vezes inimigas – sob uma mesma bandeira. Não é incomum regiões de um mesmo país europeu que falem línguas diferentes, principal característica dessa junção maluca de povos. O velho continente começa a sentir agora o que a África já vem sentindo a décadas depois da colonização, e esse seja, talvez, o preço a pagar.
vBi
ouvindo: Read My Mind, The Killers. Hung Up, Madonna.
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