Enquanto isso na Bélgica…
Está em pauta esta semana nos principais jornais belgas um caso ocorrido em 2006, em que um estudante de 17 anos foi morto a facadas na principal estação de trens da capital Bruxelas, Brussel Centraal. O que trouxe o fato de volta à tona foram as ações de grupos extremistas de direita, que viram no fato de o assassino não ser belga uma desculpa para culpar os imigrantes ilegais.
Logo no início, quando a polícia ainda investigava o assassinato, especulava-se que, pelo que podia ser visto nas imagens das câmeras da estação, o assassino fosse africano. Em pouco tempo, uma grande discussão foi fomentada pelo principal partido extremista, o Vlaams-Belang (VB). A acusação principal era de que imigrantes – não-europeus, ou seja, africanos – deveriam ser expulsos do país, porque seriam a causa de vários problemas.
Algumas semanas a mais de investigação e os policiais chegaram ao verdadeiro culpado: um jovem de
origem polonesa, um europeu. O fato, um soco no estômago dos afiliados ao VB, mudou completamente a linha de argumentação de extremistas; agora o problema era a quantidade de imigrantes ilegais vivendo no país, principalmente os do leste-europeu, que atrasavam a economia e roubavam os empregos dos belgas necessitados.
Adam Giza, réu confesso, finalmente será julgado pelo crime. Mas o povo belga discute um outro ponto, no qual ele é o inocente e defendido. O país é um dos que mais sofrem com o aumento dos movimentos de extrema direita de ideais racistas. Os partidos extremistas, em sua maioria flamengos, defendem não só a divisão da Bélgica em dois países diferentes como um controle ultra rígido de imigrantes e a expulsão de muitos deles.
vBi
O separatismo na Geórgia
Percebi já há algum tempo que muitas das pessoas que caem aqui no blogue estavam buscando informações sobre os reais motivos para as províncias separatistas da Geórgia – Abkházia e Ossétia do Sul – quererem a independência. Tendo isso em vista, resolvi iluminar um pouco o caminho.
Não sei muito aprofundadamente o que acontece na região porque não vivo lá, mas interesso-me o suficiente sobre o assunto para acompanhá-lo de perto nos jornais do mundo. E o máximo que posso dar de opinião sobre tudo isso é baseado na minha experiência própria de uma pessoa que viveu na Bélgica, um país que, talvez até mais que Geórgia, está emergido em uma de suas piores crises políticas históricas por causa de movimentos separatistas.

Mapa flamengo da Bélgica que mostra como eles dividem o país entre Flandres, cujas cidades estão detalhadas, e "região da Valônia" (Foto: Reprodução)
Na Bélgica a situação é a seguinte: há três regiões geográficas no país, divididas em três línguas e etnias diferentes. Ao norte está a região de Flandres, mais rica e cujo idioma oficial é o Neerlandês. Ao sul fica a região da Valônia, de maior dependência dos flamengos e cujo idioma é o Francês. Há ainda uma pequeníssima região ao leste, que oficialmente faz parte de Flandres, aonde o idioma oficial é o Alemão.
Por que então, sob uma mesma bandeira e um mesmo governo, vivem 3 povos tão diferentes? A resposta está na história da formação do Estado europeu, que após sucessivas guerras e conflitos, já fez parte dos Impérios Espanhol, Francês e Holandês. Depois de muita confusão e concessões de terras, a Bélgica formou-se o país que é hoje: uma parte descendente de holandeses ao norte, uma região que pertencera à França ao Sul e uma outra que, após as duas Grandes Guerras, foi anexada ao território belga. 3 povos completamente estranhos que se viram unidos em um mesmo país sem que, no entanto, sintam-se parte dele.
O caso na Geórgia é parecido: a Ossétia do Sul era uma região da antiga Ossétia, dividida após as guerras em Ossétia do Norte, pertencente à Rússia, e Ossétia do Sul, “província” geórgia. A Akházia
possui história semelhante. E então o que as duas regiões decidem fazer? Declarar independência. Ora, se o povo é diferente, a língua é outra, a cultura é oposta e a população não se sente parte de uma identidade georgiana, então eles não precisam fazer parte do país.
Mas as coisas não são tão simples quanto parecem. Declarar a independência de duas importantes regiões do território georgiano seria atentar contra a soberania dele. Além disso, ambas as províncias demonstram interesse em integrar o território russo, então para a Geórgia é como perder terras para o país vizinho. E por isso, em um primeiro momento, toda a crise no cáucaso.
Claro que há questões políticas e estratégicas por trás de todo o problema, mas essa de separatismo europeu não é novidade. Não apenas na Bélgica e na Geórgia, mas são diversas as regiões da Europa de movimentos independentistas. E tudo isso são os frutos que o velho continente está colhendo depois de tantos anos juntando inimigos e povos diferentes. É o que já acontece em Israel. É o que já acontece também na África. É o que eles precisavam para entender que geopolítica não é só traçar um monte de linhas e dizer “pronto, fronteiras!”
vBi
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