Os Brancos Que Se Entendam…
São 7 horas da manhã. Uma senhora vira-se para o marido e diz:“Buongiorno[*]”. A 120 quilômetros dali, à mesa do café da manhã, um rapaz que cultiva suas raízes brinca com a mãe: “Zeg, moeder, zijn de eieren al gebakt?*”. Apesar de tudo, não estamos na Europa, porque, de volta à primeira localidade, não muito longe da família italiana, um diálogo qualquer em Tupi também começa logo cedo. Wir sind im São Paulo*. Mesmo imaginários, os diálogos acima ilustram que, apenas em um Estado brasileiro, são faladas, pelo menos, 20 línguas diferentes do Português. No País todo, passam de 200 os idiomas.
O português é, de fato, o idioma mais amplamente executado no país. Trata-se, ainda, da expressão lingüística oficial da nação. Contudo, nem de longe figura como a única língua brasileira. Dos quase 190 milhões de brasileiros – censo estimativo de 2008 – espalhados em uma área de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, muitos não são falantes lusófonos. A “língua do Brasil”, portanto, não é uma. São várias.
O Estado, desde 1988, deu à Língua Portuguesa o status de língua oficial única, mas reconhece o direito de cada pessoa falar e expressar-se em qualquer idioma. “Há a liberdade de cada um falar sua própria língua, sem que o Português exerça uma ‘ditadura’ linguística. A Constituição, então, reconhece aos povos que eles têm direito a sua cultura e idiomas”, afirma o Professor Eduardo Guimarães, linguista da Universidade de Campinas (Unicamp) e coordenador do projeto Enciclopédia das Línguas no Brasil (ELB).
FALARES E SOTAQUES
Curiosamente, há uma proximidade notável entre as formas lusófonas de se falar no Brasil. “Em relação ao Português de Portugal, o do Brasil tem tantas mais diferenças. Há mais variações entre este e aquele que entre os diferentes falares do Portugês brasileiro. É como se este fosse outra língua, com características particulares”, diz o professor Guimarães.
Não fosse a oficialização do idioma, porém, e dada a vasta extensão de nosso território, especialistas acreditam ser provável que as diferentes formas da língua lusófona brasileira tivessem evoluído independentemente, criando uma quantidade impensável de dialetos, como em países como a China ou a Índia.
“O que surpreende é que, sendo o Brasil o país grande que é, haja esse grau tão enorme de proximidade entre os diversos ‘falares’ aqui. Uma pessoa do extremo sul entende perfeitamente uma pessoa do Nordeste, mesmo que aqui ou ali apareçam palavras que lhe sejam estranhas”, continua o linguista.
O português Made in Brasil
Outra curiosidade do idioma do Brasil é que ele conviveu com outras línguas, incorporando suas peculiaridades. “O Brasil é um país multilíngue. Essa característica linguística é significada politicamente pela tensão histórica entre um imaginário de unidade, comum a um grande número de países contemporâneos, e uma divisão das línguas e de seus falantes”, constata Eduardo Guimarães.
No decorrer dos anos, as influências das línguas africanas, de imigrantes e indígenas foram tantas que falar em “português” acaba parecendo equivocado para alguns estudiosos. De todos os oito países lusófonos – nove, se considerado Macau, província autônoma chinesa -, o Brasil é dos que possui o idioma que mais se separa daquele de Portugal.
“A questão da língua que se fala toca os sujeitos em sua autonomia, em sua identidade, em sua autodeterminação. E assim é com a língua que falamos: falamos a língua portuguesa ou a língua brasileira?”, questiona-se a professora Eni Orlandi, linguista e coordenadora do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), da Unicamp.
O debate data de anos; o movimento de reconhecimento do português começou, na realidade, em 1946, quando, naquela Constituição, resolveu-se que o nome “português” seria o da língua do País, sem ainda oficializá-lo como idioma oficial nacional. “Foi uma escolha política. Os constituintes poderiam ter optado por uma outra língua, o ‘brasileiro’, ou qualquer outra nomenclatura. Mas resolveram aproximar-se das nossas raízes e dizer que no Brasil também falava-se o português”, completa Eduardo Guimarães.
Mas o fato comprovado é que o idioma que se fala no Brasil, o mesmo que evoluiu do Português, difere deste – menos na normatização padrão da escrita. Mesmo essa “norma culta” existe porque continuamos a chamar nossa língua de Português, o que nos faz, portanto, obedecer às regras deste. “O português e o brasileiro não têm o mesmo sentido. São línguas materialmente diferentes”, finaliza Orlandi.
Míra paûé[†]
O “brasileiro” foi influenciado diretamente pela convivência com três grandes grupos linguísticos, um deles o das línguas indígenas. Um dos estudiosos dessas línguas nativas do Brasil é o Professor Angel Corbera, também da Unicamp. Segundo ele, hoje haveria algo em torno de 180 línguas indígenas “vivas” – ainda sendo praticadas – no Brasil. Dessas, a grande maioria pertence ao tronco linguístico do conhecido Tupi-Guarani.
“De acordo com os cálculos do professor da UnB, Aryon Rodrigues, à chegada dos europeus portugueses havia aproximadamente 1.175 línguas indígenas. Diversos fatores fizeram com que 85% das línguas desaparecesse, mantendo-se apenas 15%.”, afirma Corbera.
Mesmo com a drástica redução no número das línguas desses nativos brasileiros, sua importância é notável. “Sem dúvida, podemos aprender muito sobre a cultura brasileira conhecendo a história dos povos indígenas e pelo estudo de suas línguas respectivas. Destaca-se, sobretudo, as plantas alimentícias, frutas, plantas medicinais e industriais cultivadas pelos povos índios que eram inicialmente desconhecidas pelas culturas europeias”, conta o professor Angel.
Palavras como mandioca, Ipanema, Guarulhos, ipê, oca, entre outras – afinal, a lista seria interminável – têm, todas, origens indígenas. O que aconteceu, então, com essas línguas, com seus falantes? Depois de anos mudando nosso Português, as línguas indígenas foram dizimadas por um processo que, desde sempre, era de mão única: o Português jamais contribuiu em algo substancialmente positivo para esses idiomas; ele foi, pouco a pouco, engolindo essas línguas indígenas.
“A redução de 1200 para 180 línguas indígenas nos últimos 500 anos foi o efeito de um processo colonizador extremamente violento e continuado, o qual ainda perdura”, conta Aryon Rodrigues, professor do Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade de Brasília (UnB).
Portanto, os brasileiros que falam o Jê, o Nambikwára, o Tariana, o Nheéngatu, correm sério risco de perderem seu idioma. Talvez não em curto prazo, mas muitas dessas línguas estão sim ameaçadas de extinção. A família linguística do Ofayé, por exemplo, possui hoje 5 falantes no Estado do Mato Grosso, sendo que todos eles falam Ofayé-Xavânte, o que a caracteriza como a língua menos falada no País. Caso esses idiomas sejam perdidos, milhares de brasileiros terão perdido seu direito a língua e culturas próprias. E é o caminho que parecemos estar percorrendo.
O que mais podemos dizer?
Chegadas com os imigrantes no Brasil a partir de 1824, as línguas alóctones – ou de imigração, como são chamadas – no País são em torno de 35. “Algumas delas têm grande população, como o talian (ou vêneto brasileiro), o hunsrückisch (principal língua germânica falada no Rio Grande do Sul e outros estados) e o japonês”, relata Gilvan Müller, Professor da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador do IPOL (Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística).
Esses idiomas estrangeiros são falados, na realidade, por cidadãos brasileiros há pelo menos três gerações. Esse tempo foi suficiente para caracterizá-los, também, como “brasileiros”, muito embora nenhum seja reconhecido pelo governo. Eles são a forma de os imigrantes manterem, de alguma forma, sua identidade cultural, e são importantes também para o Brasil por diversificar nosso país.
“Essas línguas se territorializaram e compõe o mosaico cultural brasileiro junto com as línguas indígenas, as línguas afro-brasileiras e as línguas de sinais das comunidades de surdos”, afirma Gilvan.
Hoje, ao contrário do que se pensa, essas línguas de imigrantes não estão desaparecendo, mas mudando. Muitos dos dialetos trazidos pelos europeus nos séculos passados foram adquirindo características tão singulares aqui no Brasil que atualmente só são falados em território nacional. Além disso, os fluxos migratórios depois dos anos 2000 voltaram a crescer, mas com pessoas vindas da América Latina, do Oriente Médio e da África.
Além de todas essas línguas citadas, ainda há remanescentes de idiomas africanos. “Embora não mais falados no Brasil, podem-se reconhecer suas presenças em dois contextos específicos: nos cânticos e na linguagem ritual utilizada nos cultos afro-brasileiros, e em algumas comunidades afro-descendentes (Cafundó, Tabatinga) que conservaram o uso de um léxico de origem africana”, afirma Margarida Petter, professora da Universidade de São Paulo especialista em línguas africanas.
A realidade das línguas africanas tende a mudar, visto que já são muitos os que fogem de seus países rumo a lugares como o Brasil, seja pela proximidade linguística – casos de angolanos e moçambicanos -, seja por afinidade cultural. Em pouco tempo, esses idiomas podem entrar na categoria de línguas alóctones também.
O plurilinguismo brasileiro, “um dos mais ricos do mundo”, de acordo com Gilvan Müller, define as línguas brasileiras como muito mais que somente o português, como está fincado no imaginário nacional. “’Línguas brasileiras’ é um conceito político que visa a valorizar o patrimônio e valor das línguas da população brasileira e, ao mesmo tempo, valorizar as comunidades lingüísticas. Esse conceito dá conta da necessidade de extensão dos direitos lingüísticos a todas as comunidades brasileiras”.
[*] Bom dia, em Italiano
* Diga-me, mãe, os ovos já estão prontos?
* Nós estamos em São Paulo
[†] Todas as nações, no idioma Nheengatu, de acordo com http://tupi.wikispaces.com/Vocabul%C3%A1rio+comparado+nheengatu-tupinamb%C3%A1
Record lança R7 sem nada demais
o R7, portal da Rede Record de televisão, não faz alusão ao G1 da Globo apenas no nome. todo o site parece uma cópia piorada do globo.com. a Record não se deu ao trabalho nem mesmo de mudar as fontes e a localização dos menus. até a cor azul da página da Globo foi copiada descaradamente.
em termos de conteúdo, ainda é muito cedo para falar do R7. provavelmente, espera-se que ao menos isso seja feito pela própria Record, sem copiar – ou, melhor dizendo, “inspirar-se” no concorrente. destronar o G1 é uma pretensão grandiosa demais à qual os bispos da Universal lançaram-se; é um jogo extremamente arriscado e que exigiria, no mínimo, originalidade na hora de lançar um website. no mundo online, já é sabido que “mais do mesmo” não tem atrativo nenhum.
parece, inclusive, que a Record pegou um pouco de cada concorrente e misturou tudo, o que resultou em uma página da web sem sal. as semelhanças com o portal IG – como era antigamente, mas também um pouco com o atual – também são explícitas.
que pelo menos o jornalismo do R7 consiga ser de enorme qualidade, porque, se não, não há graça nenhuma no portal que prometia mudar o jogo na web e fazer frente aos gigantes já consolidados. não dá para tentar revolucionar uma rede que, em sua essência, é absolutamente conservadora.

página principal do R7

página inicial da globo.com
vBi
Resenha CD Tropicália
Chamar um CD como Tropicália ou Panis Et Circensis de psicodélico, louco, anárquico, é cair em um clichê sem fim sobre o movimento que marcou tão fortemente a formação cultural brasileira durante a ditadura militar. E, ainda assim, é quase impossível não recorrer a esses adjetivos tão comuns uma vez ou outra. Tropicália é um disco que começa sem começar, chega no seu meio perdido e termina como algo que tem um desfecho duvidoso. E ainda assim é genial.
No ano de 1968, enquanto era decretado o Ato Institucional de número 5, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes, Tom Zé, Rogério Duprat e outros grandes nomes da MPB juntavam-se para gravar um dos “100 maiores discos da Música Brasileira” e, também, uma das maiores críticas da arte pela própria arte.
A primeira curiosidade da compilação é ter uma faixa que não é brasileira – em um disco que representa um movimento basicamente nacional de contestação artística popular. Três Caravelas, interpretada pelos grandes Caetano e Gil, é uma versão de João de Barro de Las três Carabelas, de Augusto Algueró e Moreau. Nada que comprometa o andamento da obra, mas atrai o olhar curioso de quem para para ouvir tendo como base todo o histórico do movimento tropicalista.
Quem escuta a Tropicália logo de começo depara-se com um CD difícil de engolir e digerir. Parece que não tem uma evolução linear. Começa com Miserere Nóbis, música bastante animada, e passa direto à interpretação arrastada de Caetano de Coração Materno. Logo em seguida, Os Mutantes voltam a colocar força na compilação com Panis et Circensis – ainda hoje lembrada e escutada com paixão -, e já aí o ouvinte entende que isso tudo pode não só ser proposital como bom no fim das contas.
A mistura de estilos brasileiros entre si e com influências estrangeiras fez da obra alvo de inúmeras críticas conservadoras. O que talvez tenha passado despercebido é que, talvez, tudo fosse proposital; mesmo o uso de guitarras elétricas e influências psicodélicas poderia ser a própria crítica do trabalho artístico. E, afinal, tudo serviu para dar à compilação sua cara extremamente brasileira: uma mistura de estilos e gêneros diferentes, faixas quentes, enfim, tropicais.
A sacada esperta da obra é que seu pano de fundo, seu fio condutor, está nas letras, não apenas nas melodias e/ou intérpretes. O que transforma o disco em fundamental são as músicas um tanto quanto estranhas, difíceis, “drogadas”. O que parece não ter sentido é aquilo que justamente faz de Tropicália uma obra contestatória tão lembrada. E é por isso que o não-sentido tem, afinal, toda a razão do mundo.
Parque Industrial e Geleia Geral, que parecem jogadas em meio a um monte de músicas que, só aparentemente, não têm conexão alguma, retratam o brasileiro e o Brasil. País e povo. O desenvolvimento econômico e seus reflexos na primeira e, como o próprio nome da segunda dá a entender, a mistura que é o brasileiro – nossos costumes, folclores, crenças populares, etc. São duas faixas que criticam também o modo como a vida no País era conduzida.
A faixa Parque Industrial ironiza ainda com a realidade e com aquilo que se dizia que o Brasil era – ou, antes, aquilo em que estava se transformando. Não é à toa que a “grande festa em toda a nação” era por algo “made in Brazil”, com z mesmo. Nem nossa própria cultura caminhava por caminhos nacionais; a influência estadunidense irritava os mais conservadores expoentes da cultura popular brasileira. E a ditadura militar que se justificava pelos avanços econômicos via uma de suas piores críticas.
O desfecho do disco, um Hino ao Senhor do Bonfim, traz a ironia de transformar um símbolo do popular em soberano, em pátrio. Enquanto o Hino Nacional – e todos os outros – coloca o Estado acima de tudo e todos, sendo louvado e adorado, “idolatrado” com gritos de “salve, salve”, a última faixa é responsável por rearranjar isso colocando em evidência o que vem do povo, uma crença popular brasileira.
É uma pena que, hoje, apesar de sua enorme importância e influência na formação cultural da música brasileira, Tropicália ou Panis et Circensis tenha caído quase que em esquecimento. Talvez as pessoas não estejam mais acostumadas ao tipo de som – então não seria a hora de algo parecido vir para quebrar alguns parâmetros? Embora algumas faixas continuem vivas no popular nacional, a grande maioria perdeu-se no tempo. O próprio movimento cultural parece ter ficado no anonimato. Ainda assim, vale lembrar que esse ainda é, se não o primeiro deles, um dos discos que todo brasileiro tem que ouvir antes de morrer.
vBi
-
Arquivos
- Outubro 2009 (4)
- Setembro 2009 (3)
- Agosto 2009 (1)
- Julho 2009 (2)
- Junho 2009 (5)
- Maio 2009 (4)
- Abril 2009 (1)
- Março 2009 (4)
- Fevereiro 2009 (2)
- Dezembro 2008 (1)
- Novembro 2008 (8)
- Outubro 2008 (9)
-
Categorias
-
RSS
Entradas RSS
Comentários RSS